decidiram que matariam o cachorro juntos.
ela, meia idade, meia vida.
ele, dezenove, vida inteira a ser vivida.
olhavam para o cachorro interessados na respiração.
enche.
esvazia.
enche.
esvazia.
estava todo sujinho, todo cheio de nós e coisinhas grudadas nos pelos – brancos – que outrora eram orgulho da raça. era cego de um olho, e nunca chegariam a saber se enxergava de fato do outro. o fato é que trombava nas coisas, trombava em si mesmo e tinha medo de andar.
era um cachorrinho deveras velhinho, há de se concordar. velho de idade, velho de vida, velho porque seus dentes já não eram mais tão fortes.
o menino lembrava muito bem de quando havia ganhado o cachorro. tinha sete anos, era gorduchinho à beça – o menino – e adorava ficar em casa mais do que tudo – o que se refletiria no futuro numa tendência a viver uma vida entre quatro paredes – o que era certamente algo do qual o cachorro gostaria.
a mãe, com os braços cruzados e uma mão na boca – daquele jeito contemplativo que mãe faz, se encolhendo e se colocando pra frente ao mesmo tempo em que tampa a boca com as mãos para não deixar nada de nada escapar, nem suspiro – lembrava de como o cachorro traíra a confiança do filho.
quando chegou à casa, o cachorro era supostamente do menino. era porque era e porque o presente tinha sido dado a ele. mas nunca foi.
logo de cara o cachorrinho peludinho, branquinho, muito fofinho, se mostrou muito mais interessado na mãe do que no filho. o menino, como era pequeno e apaixonado, percebeu esse fato só bem mais tarde, e a vida dele até esse momento era baseada em saber que tinha um cachorro. seu e só seu.
enche.
esvazia.
- às vezes eu coloco a mão nele pra ver se ele tá mesmo vivo.
porque agora tinham que ter certeza. o bichinho ficava. ficava. e era isso. ele andava um pouco e ficava. respirava. ficava. saía.
- será que isso acontece com a gente também?
- não comigo. eu vou morrer cedo.
estavam ainda na mesma posição, a mulher e o menino. era quase como se estivessem olhando um bicho morto. quase.
- ele não gostava de mim.
o menino lembrava que não foram poucas às vezes, depois que percebera que o cachorrinho era mais da mãe que seu, que tentara reatar os laços soltos de um aniversário longínquo. já foi mordido, arranhado, teve seu dedo quase comido e até o pai entrou na briga. mas o cachorro continuava sendo leal à mãe.
- você acha que vale a pena ele continuar vivo?
achava – o menino – que essa tal situação com o cachorro tinha-o transformado num insensível. depois de um tempo de vida, o menino percebeu que não era gente que gostava de animal. não ligava pra cachorro, não ligava pra gato, passarinho, bode ou vaca. comia carne e não suportava a idéia de gente que não o fazia.
- mas a gente vai fazer o quê? tadinho…
a mulher não teria coragem. não sei se não queria, ou se não tinha coragem mesmo. não faz diferença. gente boa de verdade faz o quê? o menino tinha certeza que ela não mataria o bicho, porque ela era boa.
- a gente mata.
mas gente boa de verdade faz o quê? para ela, gente boa de verdade ama. e ela amava o bichinho.
amava daquele jeito que se ama bicho, ama com um pedaço do coração, que fica guardado e não te consome. não se consumiria pelo bicho morto, sabia disso, nunca o fizera.
- isso é horrível, filho.
- talvez.
- mas…
o filho já sabia que a mãe não acreditava tanto na bondade. ou naquela forma de bondade que ele tinha se acostumado a esperar dela. ela nunca o deixara bater no bichinho. ele tinha impulsos, ah se tinha. mas ela não deixava. é errado bater nele, ele não tem culpa, ela dizia.
- ele não tem culpa.
enche.
esvazia.
enche.
esvazia.
- ele não merece.