sem título

17 jan

que se dissipe a dor
de cabeças
que não se saiba
da cor que ficaram
que não se vejam
nos próximos anos
que não se falem
que não se amem
que não.

que se chateie as memórias
bonitas e
mate-as
que se morda o amor
de parquinho
tão verde
que se finja que
nunca
foi.

que merda.

solto.

15 jan

me suspenderam o tempo

que farei eu sem ele
o que fará ele
se não me vir passar
se não passar
e ele?

me suspenderam pescoço

de corda firme
de olhos fechados
e se eu não ficar
e só desistir?

me suspenderam a vida
amor.

sem título.

29 nov

não deu.

queria tanto ter palavras pra me por a escrever sem parar.
queria tanto querer ter dedos pra escreverem incansavelmente.
queria tanto memórias diferentes.
queria tanto.

mas não deu.
e isso é uma merda.

ontem.

28 nov

ontem fazia calor da porra, mas foi-me dito que levasse casaco.
hoje levava casaco e fazia frio.
mas não o pus.
senti o vento e senti a falta, como se devem sentir.

amanhã talvez faça frio.

e onde está o paletó?

cachorrinho.

30 set

decidiram que matariam o cachorro juntos.
ela, meia idade, meia vida.
ele, dezenove, vida inteira a ser vivida.
olhavam para o cachorro interessados na respiração.
enche.
esvazia.
enche.
esvazia.
estava todo sujinho, todo cheio de nós e coisinhas grudadas nos pelos – brancos – que outrora eram orgulho da raça. era cego de um olho, e nunca chegariam a saber se enxergava de fato do outro. o fato é que trombava nas coisas, trombava em si mesmo e tinha medo de andar.
era um cachorrinho deveras velhinho, há de se concordar. velho de idade, velho de vida, velho porque seus dentes já não eram mais tão fortes.
o menino lembrava muito bem de quando havia ganhado o cachorro. tinha sete anos, era gorduchinho à beça – o menino – e adorava ficar em casa mais do que tudo – o que se refletiria no futuro numa tendência a viver uma vida entre quatro paredes – o que era certamente algo do qual o cachorro gostaria.
a mãe, com os braços cruzados e uma mão na boca – daquele jeito contemplativo que mãe faz, se encolhendo e se colocando pra frente ao mesmo tempo em que tampa a boca com as mãos para não deixar nada de nada escapar, nem suspiro – lembrava de como o cachorro traíra a confiança do filho.
quando chegou à casa, o cachorro era supostamente do menino. era porque era e porque o presente tinha sido dado a ele. mas nunca foi.
logo de cara o cachorrinho peludinho, branquinho, muito fofinho, se mostrou muito mais interessado na mãe do que no filho. o menino, como era pequeno e apaixonado, percebeu esse fato só bem mais tarde, e a vida dele até esse momento era baseada em saber que tinha um cachorro. seu e só seu.
enche.
esvazia.
- às vezes eu coloco a mão nele pra ver se ele tá mesmo vivo.
porque agora tinham que ter certeza. o bichinho ficava. ficava. e era isso. ele andava um pouco e ficava. respirava. ficava. saía.
- será que isso acontece com a gente também?
- não comigo. eu vou morrer cedo.
estavam ainda na mesma posição, a mulher e o menino. era quase como se estivessem olhando um bicho morto. quase.
- ele não gostava de mim.
o menino lembrava que não foram poucas às vezes, depois que percebera que o cachorrinho era mais da mãe que seu, que tentara reatar os laços soltos de um aniversário longínquo. já foi mordido, arranhado, teve seu dedo quase comido e até o pai entrou na briga. mas o cachorro continuava sendo leal à mãe.
- você acha que vale a pena ele continuar vivo?
achava – o menino – que essa tal situação com o cachorro tinha-o transformado num insensível. depois de um tempo de vida, o menino percebeu que não era gente que gostava de animal. não ligava pra cachorro, não ligava pra gato, passarinho, bode ou vaca. comia carne e não suportava a idéia de gente que não o fazia.
- mas a gente vai fazer o quê? tadinho…
a mulher não teria coragem. não sei se não queria, ou se não tinha coragem mesmo. não faz diferença. gente boa de verdade faz o quê? o menino tinha certeza que ela não mataria o bicho, porque ela era boa.
- a gente mata.
mas gente boa de verdade faz o quê? para ela, gente boa de verdade ama. e ela amava o bichinho.
amava daquele jeito que se ama bicho, ama com um pedaço do coração, que fica guardado e não te consome. não se consumiria pelo bicho morto, sabia disso, nunca o fizera.
- isso é horrível, filho.
- talvez.
- mas…
o filho já sabia que a mãe não acreditava tanto na bondade. ou naquela forma de bondade que ele tinha se acostumado a esperar dela. ela nunca o deixara bater no bichinho. ele tinha impulsos, ah se tinha. mas ela não deixava. é errado bater nele, ele não tem culpa, ela dizia.
- ele não tem culpa.
enche.
esvazia.
enche.
esvazia.
- ele não merece.

cozido.

20 ago

peguei a agulha e enfiei no dedo.
o que faz com isso menino?!
me costuro
é, costuro
sim, daquele jeito literal
(e quando não?)
porque não tenho jeito
porque não há defeito
é só um rasgadinho
é só bem machucadinho
ah, então tá bom!
se é pra fazer conserto
não tem problema não!
ah se lhe enfio a agulha nos olhos, criatura!
mas se for pra consertar
só se for pra costurar
ah, então não tem problema

não!

#moleskine5

20 ago

das verdades do mundo
encontrei a mais sã
e ela me disse
pra não continuar.

o futuro.

17 ago

vai chover logo
já dá pra ver as nuvens chegando

comum.

24 jul

naquele lugar, ninguém era ninguém.
todos se imitavam, se coordenavam. pareciam partes de um todo, um todo muito grande que era uma massa disforme, que não fazia sentido. mas não eram.
não eram partes de um todo se eram todos iguais.
vestiam-se iguais, falavam com a mesma voz, o mesmo sotaque, as mesmas manias. faziam tudo que tinham que fazer para que, no fim, não fosse possível identificar-se.
parecia medo.
medo de se mostrar, de encarar o mundo. todo mundo se imitava e assim, era acolhido.
todos se acatavam, como se não fosse possível dizer não. talvez não fosse. eram amigos porque tinham que ser, porque era o único jeito. ninguém quer ficar sozinho, não é mesmo?
e dirão que há tudo em comum, e não estarão mentindo. há o ser em comum. a situação. a cidade.
não se preocupam se fazem o que gostam, se vestem o que gostam, se são como são. são para os outros, se fazem para os outros, e o ciclo está formado. todos serão todos, até que não haja identidade.
todos se deixarão se lado pra se entregar.
porque ninguém pode ser diferente.
ninguém quer.

sem título.

24 jul

escreveu.
como não escrevia há tempos, as letras escapulindo dos dedos e as pequenas fagulhas de pensamento saindo das têmporas como há muito não se via.
dilacerava as páginas, suando em cima delas e molhando e borrando letras e mais letras daquelas que já não eram mais letras tão legíveis assim.
inspirava (-se).
ao desgrudar a folha de papel da mão – pois já eram quase uma só pelo tempo que demorou pra colocar ponto final, lendo, relendo, e lendo novamente a última palavra – ficou estatelado nas costas da cadeira, corpo entregue à madeira, mãos azuis e molhadas de tinta e suor.

leu.

grande bosta.

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